* bem-me-quer, mal-me-quer *


sala de espera 1

- próxima ponte, por favor.

- não tem lugar junto.

- então a gente espera o próximo vôo.

- não vai ter próximo, essa é a última ponte.

- por quê? (voz trêmula)

- porque houve um acidente, um avião derrapou na pista e, por causa da chuva, atolou na lama. a pista principal está fechada.

- que ótimo... e por onde vamos decolar então?

- temos uma pista de apoio.

parênteses: pista de apoio = precária.

- tudo bem, vamos nessa aí então. (voz 2x mais trêmula)

* * * * * * * * * * *

- tem pouca gente nesse ônibus.

- o aeroporto está uma bagunça. tem vôo com mais de 2 horas de atraso.

outro parêntese: aeroporto bagunçado + atraso = precariedade

- é nesse avião que a gente vai?

- é.

- nesse mini jato que não cabe ninguém em pé?

- é seguro.

- sei, é igual ao que tá estatelado lá na pista!! eu não vou. (...) por favor, eu não vou embarcar nesse avião e queria retirar minha mala daí.

- desculpe, isso é impossível. a bagagem já foi embarcada e não tenho como abrir. a senhora só vai poder retirar sua bagagem no rio.

- desculpe você moço, mas acho que você não tá entendendo. eu não vou embarcar hoje, só vou amanhã. hoje não tem mais ponte-aérea, a mulher me avisou. eu preciso pegar minha mala agora!

- minha filha, eu estou te falando que tem outro vôo hoje. com o tempo que você está perdendo gritando aqui comigo, você já podia estar dentro do outro avião!

- qual o seu nome, por favor?

- fulano. (escondendo o crachá dentro da capa de chuva)

* * * * * * * * * * *

(chegando no outro avião, um modelo de 1814)

- peraí, esse avião é velho!

- como assim velho?

- moça, me desculpe, mas esse avião tem banco de couro! o último avião que eu viajei com banco de couro foi o elletra, há 132 anos! esse avião tem banco de couro e não tem ar-condicionado! sem aquela saída pessoal de ar-condicionado eu não consigo respirar dentro do avião!!

- calma, qual é o seu nome?

- daisy.

- então, olha só, daisy, blábláblábláblá. não tem problema.

- desculpa, mas eu já tô nervosa o suficiente hoje pra ter que passar por isso. (chorando)

- você quer conversar com o piloto, conhecer a cabine? (voz de retardada)

- não, eu tenho medo da cabine, não quero ver!

- ei, não precisa ficar com medo! (rodrigo, meu vizinho de poltrona, de 6 anos. 6 anos, isso mesmo)

- ah, que ótimo, uma criança vem me dizer pra não ter medo! eu tenho medo!

- você quer uma água com açúcar?

- 3 copos, por favor.

- então daisy, vem aqui, senta aqui na frente, fica perto do rodrigo, fica perto da gente e você vai ver que não tem problema.

- é, não tem problema, da última vez que eu viajei caíram aquelas máscaras, sabe? e aí...

- rodrigo! olha só, querido, vamos falar de outra coisa. me conta onde você estuda.

(...)

- moça, o avião que caiu aqui caiu de barriga?

- rodrigo!! meu amor, me conta dos seus irmãos!

(...)

- (...) e aí eu tava jogando game-boy e...

- seu game-boy tá desligado?

- tá. (...) mas às vezes ele liga sozinho.

(...)

- sabia que eu coloquei um adesivo no meu celular?

- seu celular tá desligado?

- tá.

- posso ver pra ver se é igual ao meu?

A PORRA DO CELULAR ESTAVA LIGADO!

- moça, desculpa, mas com essa confusão o cara da torre de comando não pode errar? não pode liberar um vôo que não tá liberado, sei lá, essas coisas?

- não, querida.

- e por quê a gente tá indo nesse avião velho?

- esse avião não é velho, já te falei, mas com a pista principal fechada, os aviões não estão pousando aqui e não temos aeronaves disponíveis.

- e por isso a gente vai com esse cacareco enferrujado que tava no mecânico?

- hahaha, ele não é velho, só estava no hangar esses dias.

- certo...

NNNHHHHHHHEEEEEEEEECCCCCCCCCCCCCCC (compartimento de bagagem abrindo)

- tá bom, avião novo não faz esse barulho.

(depois de 50 minutos de espera e 35 de vôo)

- tchau, obrigada, obrigada pela ajuda, obrigada, obrigada, tá? foi legal, obrigada, obrigada...

- ok, tchau, daisy. verônica, dá um chaveirinho pra ela, um não, dá dois que ela merece.

fim da cena. fim do pastelão. fim da epopéia e fim do meu fim-de-semana. saí de lá e fui comprar minha chupeta.



 Escrito por DAISY às 15h41
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pt

viajar de avião é uma das coisas mais desagradáveis que existe e poucas coisas me dão tanta aflição quanto aquela porra daquela tela que mostra a altitude, a temperatura externa e a velocidade com que estamos voando.


(talvez única) coisa boa do finde: 2 cdzinhos que ganhei de presente, com muito amor: james cotton & big band, negão gaitista de chicago - um primeiro estímulo à minha antiga vontade de aprender gaita - e keith richards and the x-pensive winos. entre uma cheirada e outra, o rolling stone manda ver músicas inéditas de sua autoria num boteco sujo de alguma cidade suja dos eua.

 



 Escrito por DAISY às 15h26
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